Nesta sociedade fragmentada, assim como você, eu também vou a diferentes médicos quando estou com algum probleminha de saúde. Cada parte do corpo uma especialidade. Em muitos, pelo menos na maioria deles, é quase sempre uma dificuldade para marcar consulta e outra maior ainda para retorno. Claro, isso porque tenho plano de saúde, se fosse particular, a marcação da consulta era pra agora. Imagine o sistema público.
Como em um determinado profissional que me consultava havia anos a situação estava cada vez mais difícil a ponto de eu ter que quase me humilhar para marcar uma consulta para uma emergência – na maioria das vezes sem sucesso – decidi mudar de médico. Ainda mais que o outro profissional escolhido tinha tratado muito bem meu pai, com uma cirurgia. Queria que fosse diferente, acreditava no diferente.
Liga pra marcar consulta, pergunta se é convênio ou particular, tudo isso já é padrão pra mim, no dizer dos médicos, protocolo padrão. Vou à consulta e sou atendido rápido com um monte de exames pra fazer. Até aí tudo certo. Com os exames nas mãos, outro périplo. Liga pra marcar o retorno e já se fala em encaixe. Se tem horário para consulta, porque não fazem horário para retorno também? Afinal de contas, retorno é a continuidade de uma consulta, não é?
“Vais ser atendido entre 9 e 10 horas de depois de amanhã” – fala a secretária num tom de que está fazendo um favor pra mim. Respirei fundo e consenti.
No dia marcado, lá estava eu sentado naquela poltrona totalmente fora de ergonomia, mas bem acompanhado de um interessante livro. Após 40 minutos a secretária diz que eu serei o próximo; comunicado só depois de eu perguntar se o doutor ainda não tinha chegado. Guardo o livro e aguardo minha vez. Qual não foi minha surpresa que outro paciente, recém chegado, é chamado e entra na minha frente.
Imagine a cena. Eu olho pra secretária que, de cabeça baixa, finge estar ocupada. Eu olho para as outras duas secretárias, a situação não é diferente. Mantenho a calma. Fico sóbrio. Mas uma sensação de impotência, de humilhação, de decepção me toma conta do corpo e só me resta chorar. Choro na frente dos outros pacientes que também esperam. Choro na frente das secretárias que gelidamente agora me olham e, sinto, me analisam como sei lá o que.
Meu choro não é de raiva do médico que dá as ordens para isso acontecer, muito menos das secretárias. É de decepção, pois havia mudado de médico, de secretária, achando que algo iria mudar. E a situação se repetia, de novo.
Chorei me perguntando porque não ser justo, não manter a palavra quando disse que eu seria atendido? Chorei pensando no tratamento desigual que muitos têm, inclusive eu. Chorando, fui até o carro que estava estacionado na frente da clínica e fui acolhido por minha companheira com um abraço. Não sabia se virava as costas e ia procurar outra humilhação em outro lugar. Refeito, mas ainda em lágrimas, retornei. Sentei novamente naquela desconfortável poltrona até ser atendido 90 minutos depois de chegar.
Entrei no consultório do médico e ali, na frente dele, sentei e chorei. “E por que choras, senhor?” – perguntou-me o insensível doutor. “Choro pra não gritar, pra não chutar, choro porque é o que me resta diante da humilhação, do tratamento desigual”. Em uma tentativa de explicar o inexplicável, ele justificou dizendo que apareceu uma emergência, um senhor com câncer. Ao que respondi: “Talvez por isso aquele senhor estava aqui com câncer, não chorou quando foi humilhado na fila para ser atendido.”
* Jornalista, agricultor, psicólogo, jardineiro, escritor, peregrino – www.oikos.org.br
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Bravo…Aplausos…
Bela resposta para estes médicos (carniceiros) só se importam com o dinheiro.
Bem assim querido! Em frente, marche!