Caminho do Coração

DSC_3833Mhanoel Mendes

A saga do antropólogo estadunidense, Carlos Castanheda, convivendo anos na década de 1960/1970 com o xamã mexicano, dom Juan Maltus, é, no mínimo, instigadora para todos nós buscadores deste mundo dD’Eus. Enquanto tentava entender o efeito das plantas alucinógenas na vida dos nativos, enveredou-se numa jornada de autoconhecimento, de encontros e desencontros que mexe com todos que entram em contato com esta experiência. A partir do encontro com Dom Juan Maltus, Castanheda mudou o foco da lanterna, ou seja, deixou de focar fora para iluminar dentro.

Dom Juan Maltus falava do caminho do guerreiro, não do guerreiro de armas, mas do combatente de si mesmo. Daquele que vai ao âmago da sua alma, que atravessa o deserto da existência com a noite escura da alma, que vivencia a tristeza medular e que, por isso, também conhece a alegria verdadeira.

Mas o maior ensinamento o índio, pra mim, foi o que muitos mestres falam do caminho do meio, do meio termo. Nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Para Dom Juan essa maturidade significava o caminho do coração.

Num dos ensinamentos mais belos e lúcidos, o índio disse a Carlos Castanheda que na vida só existem dois caminhos, para a surpresa do antropólogo que imagino tenha questionado: – “Quais?”

– Na vida só existem dois caminhos e ambos levam a lugar algum, disse Dom Juan. Que finalizou: “Mas só um tem coração”.

Nossa. Esta frase soou no meu coração como uma chave.

Por ora, e isso me dá uma leveza, sinto – e é só um sentimento meu, nada me garante que era assim mesmo que ele pensava – que o que Dom Juan queria dizer é que na vida tem o caminho do ego e o da simplicidade, da fragmentação e da inteireza, da confusão e da harmonia, da sombra e da luz, do bem e do mal. Há o caminho que gastamos energias infinitas para caminhar e outro do fluir, do planar. Sempre há opções para seguirmos e que a cada um cabe decidir e depois arcar com as consequências. Mais: que nenhum deles está errado. Afinal de contas, diz Roberto Crema, não existe caminho errado, todo caminho leva a algum lugar.

Continuando com a frase: “Na vida só existem dois caminhos e ambos levam a lugar algum. Mas só um tem coração”. É isso. Este é o segredo. Já que ambos levam ao mesmo fim, que tal então trilharmos um caminho que faça sentido pra cada um de nós, que nos arrepie, que nos entusiasme, que nos motive a viver mais e melhor? Que tal nos observarmos em cada gesto, em cada ação e sentirmos como está o nosso ânimo, o nosso estado de felicidade a nossa entrega real no que estamos fazendo neste momento? Este talvez seja o segredo: “Só um caminho tem coração”. “Vá onde está o seu coração”, ensinava Confúcio. Onde está o seu coração, caro leitor?

A professora Lúcia Torres, diretora da Unipaz-Sul, sempre fala que crescer dói. E dói medularmente. Mas não existe outra razão para vivermos se não crescermos como seres humanos espirituais que têm experiência física, lembra Deepak Chopra. Crescer dói, mas vale a pena, pois este é o único caminho que devemos seguir nesta existência, rumo a nós mesmos, ao nosso encontro, ao paraíso prometido.

Estas são algumas das minhas ideias que penso e procuro agir neste momento, amanhã posso mudar. Não quero que você concorde ou discorde, só desejo que você me entenda.

* Jornalista, agricultor, psicólogo, jardineiro, escritor e peregrino – www.oikos.org.br

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