Simplicidade Voluntária II

DSC00302* Mhanoel Mendes

Como o querido e atento leitor lembra, há 15 dias fiz aqui neste espaço uma explanação sobre um importante tema para os dias atuais: a simplicidade voluntária. A autora do livro “Simplicidade Voluntária”, Duane Elgin defende em um dos capítulos que faz toda a diferença a simplicidade ser voluntariamente escolhida, e utiliza o exemplo de duas pessoas que usam a bicicleta para ir ao trabalho, para economizar combustível. A primeira usa a bicicleta para se exercitar fisicamente, ter contato com a natureza e poupar energia. Ele teria a possibilidade de usar o carro, mas opta pela bicicleta, e sente grande satisfação em optar por esse meio. Já a segunda pessoa vai de bicicleta ao trabalho porque não tem condições de comprar o carro. Ela anseia por ter um carro, e fica ressentida toda vez que tem que ir e voltar do trabalho de bicicleta.

Exteriormente, a atividade é a mesma. Contudo, as perspectivas pessoais são completamente diferentes. E aqui vale uma pergunta: qual das duas oferecerá uma resposta funcional mais eficiente para a economia de combustível, a primeira ou a segunda?  Fica evidente, a partir desse exemplo, descobrir se a vida simples foi voluntariamente escolhida ou externamente imposta. E mais, a simplicidade voluntária envolve não apenas os aspectos puramente objetivos da atividade, mas sobretudo os aspectos subjetivos, ou seja, a intenção com que se faz.

No plano do consumo, uma vida simples requer um equilíbrio, um meio termo, entre os extremos da pobreza e do excesso. E essa é uma tarefa estritamente pessoal, que somente a nós cabe realizar. Precisamos diferenciar necessidades – bens essenciais à nossa sobrevivência e crescimento – dos desejos ou vontades – bens materiais supérfluos, que apenas gratificam nossos desejos psicológicos – e encontrar aquilo que é suficiente para nós.

No âmbito das relações interpessoais, viver com mais simplicidade significa deixar de lado conversas e bisbilhotices inúteis (no bom português, as fofocas), e valorizar a comunicação para reforçar relacionamentos e promover crescimento pessoal. A capacidade de viver de forma mais simples requer, sobretudo, menos identificação com as posses materiais, através de um processo de maior autoconscientização.

De acordo com Elgin, estamos vivendo um período de colapso na civilização, em que impera a desordem nos sistemas, bem como a perda da coesão social. Há três saídas possíveis para esse período de crise: colapso e desintegração da civilização, onde o fim é a destruição da sociedade; estagnação, onde prevalece a manutenção do status quo,  e, por último, revitalização, onde se busca construir um futuro sustentável, ancorado em novos valores.

Para a sociedade se revitalizar, é essencial adotar a simplicidade no viver, baseado, também, na Lei da Simplificação Progressiva, de Arnold Toynbee: “À medida que a evolução prossegue, a civilização passa a transferir parcelas crescentes de energia e atenção dos aspectos materiais para os aspectos não-materiais da vida”.

As mudanças que apoiam a revitalização da civilização são focadas, principalmente, no uso de bens e serviços ambientalmente sustentáveis. Isso, de fato, vem ocorrendo pela preocupação cada vez maior das pessoas e das empresas em favorecer o uso de tecnologias verdes, diminuindo seu impacto ambiental.

Ademais, é preciso sair do estado de hipnose cultural do consumismo, o que Pierre Weil denominou de “normose”, e, aqui, Elgin traça severas críticas à televisão.

Todas essas medidas são necessárias para a construção de um futuro sustentável, tanto no plano individual, quanto no plano coletivo, onde a participação de cada um, ao transformar sua própria vida, é fundamental para caminhar nessa direção.

Eliminar distrações desnecessárias, ter consciência de suas próprias atitudes de consumo e de relacionamento, e agir de forma cooperativa com os demais membros da comunidade onde se vive, são alguns dos pontos mais destacados nessa obra, de inegável valor, cujas lições são de fato atemporais, e permanecem vivas e bem atuantes, mesmo decorridos quase 40 anos de sua publicação original.

As ideias basilares dessa obra encontram muita ressonância com o livro “Dinheiro e Vida”, portanto, quem já tiver lido esse último livro, encontrará na obra de Duane Elgin um complemento de primeira, onde se foca mais nos aspectos intangíveis, ecológicos e comunitários, e menos nas questões financeiras.

Para finalizar, deixo aqui a dica de um site brasileiro, com conteúdo qualificado sobre o tema, cujo endereço não poderia ser mais apropriado: www.simplicidadevoluntaria.com.

* Jornalista, agricultor, psicólogo, agricultor, escritor e peregrino – www.oikos.org.br

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