Cabras

Cabras* Mhanoel Mendes

Plínio era um exemplar funcionário, excelente pai de família. Era conhecido entre os amigos como um homem dedicado a tudo que fazia. Colocava paixão, amor nas suas relações, nos seus trabalhos profissionais e voluntários. Enfim, era uma pessoa muito querida. Além destes predicados, Plínio era conhecido por criar cabras.

Depois da família, depois do trabalho e antes de muitas outras coisas, Plínio cuidava com tanto esmero das suas cabras que dava orgulho de ver. Semanalmente era um ritual de comprar alimentos, de ordenhar, de acompanhar o nascimento dos cabritinhos e assim vai. Na época de vacina então, era um ritual de espetar as agulhas grandes e pontudas que se via a dor no rosto do pobre homem.

Contam que jamais Plínio matou sequer uma cabra pra comer. Quando se via alguma morta, e isso era raro, pois ele as cuidava como que se cuida de um filho, era de velha. Ou quando algum cachorro malvado entrava na baia e fazia o serviço.

Os familiares de Plínio já estavam questionando o trabalho do pai, já que ele só tinha prejuízo. Sequer lucrou financeiramente uma vez, nem mesmo quando emprestou alguns animais para exposição; teve que arcar com todas as despesas. Bom de coração, acabou doando os três lindos  cabritinhos ainda filhotes para as crianças que insistiam para que seus pais os comprasse.

Chegou um tempo na vida de Plínio que sua vida girava em torno das cabras. Tudo o que ele falava, pensava, estudava tinha as cabras como foco. Começou a ser conhecido em São José e não demorou para ser referência de criação de cabra na grande Florianópolis. Todo importante, até concedeu entrevistas para um jornal regional, um canal de televisão estadual e participou de um programa de rádio cujo tema não era outro se não a cabra e seus hábitos.

Em um desses verões avassaladores, tanto no calor quanto dos fortes ventos, boa parte do telhado das baias, cuidado com tanto carinho, foi levado. Era caco de telha para todos os lados. Uma dó.

Como super-herói salvador de cabras, Plínio não hesitou e fez o que não se deve fazer: subiu no telhado quebrado exatamente no dia de chuva. A lei da gravidade entrou em cena, antes a irresponsabilidade do obeso Plínio. Uma telha pontuda entrou no lado esquerdo da barriga, exatamente cinco dedos ao lado do umbigo e foi levando tudo. Resultado: dois meses de hospital, dos quais, uma semana foi na UTI.

Quando deixou o hospital, Plínio foi direto ver as cabras. Quando as viu, sua cara de tristeza lembrava quando ele aplicava vacina nos animaizinhos. As cabras estavam sem abrigo, magras, estavam muito feias mesmo. Quando perceberam Plínio, vieram berrando aos montes, quando ele percebeu que perdera uma dezena delas com o acidente.

Todo enfaixado, ainda com marcas profundas do acidente, ele percebeu que não tinha mais a mesma disposição quando tentou se abaixar para mexer na barba do bode Pedrão, um reprodutor de pele branca e chifres afiados e arcados pra trás; um dos primeiros a chegar, há 15 anos. Foi ali que resolveu se desfazer da sua criação.

Inicialmente colocou uma placa defronte ao terreno: “Vendo toda a criação de cabras. Excelentes animais”. E foi pra casa esperar os contatos. Como ninguém ligou, unzinho sequer. Então, Plínio resolveu estender a divulgação no jornal local, depois no regional, chegando a um importante periódico diário estadual. Resultado: uma ligação. Mais nenhuma. Jamais esta pessoa ligou pela segunda vez; procurava ovelhas, não cabras.

Surpreso, ele se perguntava: “Como ninguém vai se interessar pelas minha belas e saudáveis cabras? As pessoas não sabem que valor elas tem.

Diante do prejuízo com medicamentos e alimentação, além de contratar uma outra pessoa para cuidar mesmo que temporariamente, Plínio se viu obrigado e oferecer gratuitamente os animais a pessoas conhecidas. Um disse que cabra é mau agouro, outro disse que elas destroem tudo o que vê na frente, outro falou em matar, mas desistiu quando viu que teria que coloca-las em regime de engorda. “As pessoas não sabem o valor que estas cabras tem”, pensava ele.

Uma pena, aquilo que Plínio mais se dedicou, investiu tempo e dinheiro, aquilo que tinha grande valor pra ele, ninguém quis comprar e nem aceitar como presente. Depois de tempos tentando desovar os animais em algum lugar, enfim conseguiu repassar aquela malhada de cabras para uma entidade filantrópica.

Em tempo: a entidade só ficou com as cabras depois que Plínio prometeu transportar gratuitamente os animais para o terreno indicado e pagar seis meses de ração.

* Escritor e psicólogo – www.oikos.org.br

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Uma resposta para Cabras

  1. bruno vidal disse:

    será mesmo uma página institucional… esse nome “anjo” os posts, sempre fazendo referencia a algo além do negócio ou lucros… tem dedo de Deus aí!!!!! né… quais são os valores dessa empresa….

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