Sabedoria

artigosabedoria* Mhanoel Mendes

Ao contrário do que muitos pensam, sabedoria não vem do verbo saber e sim de saborear. Sim, saborear um encontro, um filme, uma viagem, uma leitura; saborear uma palestra, um show, um alimento, uma conversa. Saborear.

Na tentativa de aprofundar este significado, hoje vou trazer uma história de Mullá Nazrudin, um conhecido sábio que viveu no oriente, antes da era Cristã. Ele era muito conhecido e muitos monarcas o procuravam para esclarecimentos e aconselhamentos.

Conta o sábio Nazrudin que um barqueiro recebeu em sua canoa um emérito professor. Este, apegado aos seus diplomas, livros, histórico escolar, sentou-se no banco da proa, agarrou-se a maleta que carregava e falou de forma prepotente:

– Leve-me ao outro lado da margem.

O barqueiro, com sua simplicidade e sabedoria, obedeceu. Começou a remar, a levar o professor de uma margem a outra. O que faz a educação, se não levar as pessoas da margem da ignorância para a informação, da margem do conhecimento para a margem a sabedoria?

– O senhor fala algum idioma além do seu? – perguntou o professor olhando o barqueiro com desprezo

– Não, eu não falo senhor. – respondeu o barqueiro.

– O senhor leu mais que uma dezena de livros em sua vida, senhor barqueiro? – perguntou aquele que ensinava.

– Não, senhor, não cheguei nem na metade disso. – respondeu.

Cheio de si, o professor levanta o nariz, olha acima da linha do horizonte e faz a última pergunta:

– O senhor nunca viajou pra fora, nunca saiu dessas terras, não é verdade?

– Sim, como o senhor sabe? Realmente vivi toda a minha existência por aqui. – respondeu mais uma vez o barqueiro. Ao que é retrucado pelo emérito professor.

– Senhor barqueiro, o senhor perdeu metade da sua existência!

Depois disso, só se ouvia os remos do barqueiro deslizarem de forma determinada e carinhosa beijando a água. De repente, o barco foi de encontro a um pedaço de árvore que estava no fundo do rio, provocando um buraco bem ao lado do pé do professor. Este, desconcertado, agarrou-se mais firmemente sua valise, arregalou os olhos para o barqueiro. Tranquilo, o barqueiro pergunta ao professor:

– O senhor não sabe nadar, não é mesmo, professor?

– Não. – responde o educador.

Ao que o barqueiro, então coloca:

– Que pena, professor. O senhor perdeu toda a sua existência.

* Psicólogo e escritor – www.oikos.org.br

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