O Professor, o Educador e o Bichinho

* Mhanoel Mendes

Com a capacidade sagrada da imaginação, vamos, neste momento, nos transportar para dois locais de aprendizagem onde duas pessoas estão facilitando o acesso de dois grupos distintos de crianças às letras do alfabeto. Animados, como é todo grupo de criança que ainda não se tornou séria, elas ainda estão na primeira letra.

Decorado, pois antes de entrar na escola as crianças já sabem a fonética da primeira letra que é “a”, elas repetem nos dois grupos: “Aaaa…”. O eco se ouve na sala dos professores. Justamente aqui peço mais uma vez o esforço do meu leitor.

Então, estamos na chamada sala de aula com suas cadeiras danificadas, suas paredes riscadas e nenhuma folhagem ou algo que pelo menos lembre a natureza. E, agora, retornemos ao início, voltemos a “a”.

Em uma sala, o professor tenta ensinar o alfabeto com “a” de alce, de amor, de avestruz. Em uma outra sala, o educador busca retirar dos estudantes conhecimentos que eles já possuem a partir da letra em questão. Surgem abacaxi, abacate, Alisson, um coleguinha da turma, e até Ana, que é o nome da educadora.

Enfim, é um tal de levantar o dedo para que sua palavra seja compartilhada. “Ah! Lembrei de outra palavra”, comentou um estudante. Cortando, um outro mais rápido e extrovertido disse: “O ‘ah’  que o Ricardo falou também tem a letra “a”. Eis que neste exato momento, nos dois ambientes, ou seja, na sala do professor e na sala da educadora, entra voando um bichinho.

Na sala um, o professor, ele,  sem avaliar corretamente a situação, logo se coloca em uma postura de proteção do grupo (como se dominasse tudo) e, em um ato rápido, pega o seu sapato e esmaga o bichinho. As crianças, sem saber exatamente o que estava acontecendo e sem ver sequer a cor daquela criaturinha, acabam de ter uma lição: bicho faz mal, por isso passam o resto de suas vidas esmagando formigas, matando besouros, se autodestruindo.

O mesmo tipo de bichinho também entra na sala ao lado, dessa vez, na sala da educadora. Em harmonia com o outro, consigo e com o universo, ela pede que as crianças se afastem, que abram os vidros e deixem aquele animalzinho bem a vontade.

Não deu outra. Logo o bichinho pousou na mesa grande. Foi quando o educador chamou todo o grupo de criança e se reuniu com elas em torno do animalzinho. Foi assim que todos puderam observar suas asas, suas cores e pelinhos, além do seu rabinho com espada.

O bichinho, era uma abelha, com “a”, a primeira letra do alfabeto.

* Psicólogo e escritor – www.oikos.org.br

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